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30/05/2020 | 14:45 - Internacional / Mundo

Por que a picada da ‘vespa assassina’ arde tanto?

Foto: Takashi Shinkai

As vespas-mandarinas (Vespa mandarinia) defendem sua colônia agressivamente, embora tenham tendência a ignorar pessoas quando estão em busca de alimentos.

As vespas-mandarinas, avistados nos Estados Unidos recentemente, possuem veneno relativamente tóxico que pode causar dor intensa, mas raramente ser letal.
 
 
O que uma pessoa sente ao ser picada pela “vespa assassina”, da espécie Vespa mandarinia? Dor. Muita dor.
 
A sensação é como ser “apunhalado com uma agulha incandescente”, diz Shunichi Makino, que estuda vespas e abelhas no Instituto de Pesquisa em Silvicultura e Produtos Florestais do Japão. Como se isso não bastasse, a aflição permanece.
 
“De modo geral, o local picado fica gravemente inchado e a dor continua por alguns dias”, explicou Makino por e-mail. E “embora esses sintomas também possam ocorrer ao ser picado por outras espécies de vespa, relatos indicam que a intensidade é muito mais violenta na espécie Vespa mandarinia”.
 
Soichi Yamane foi picado durante o trabalho. Ele era pesquisador de vespas, agora aposentado, confirma a descrição de Makino: “A dor durou dois dias e eu nem conseguia dormir direito devido à dor intensa.”
 
Histórias de picadas agonizantes são um dos motivos pelos quais a recente descoberta das vespas-mandarinas no estado de Washington gerou tanta comoção. Os insetos atualmente estão entre os assuntos mais comentados nas redes sociais como “vespas assassinas.”
 
Embora esses insetos tenham o potencial de se propagarem, até o momento não foram encontrados em mais nenhum local dos Estados Unidos. E os cientistas e outros especialistas estão se trabalhando intensamente para tentar localizar e eliminar possíveis populações escondidas na área de atenção no noroeste de Washington.
 
A fascinação por esses insetos e pelo perigo que representam levanta a dúvida: o que é tão especial, se é que há algo especial, em relação à picada da vespa-mandarina? E qual o grau de toxicidade de seu veneno?
 
 
Por trás da dor
 
 
A toxicidade do veneno da vespa-mandarina, e de muitos de seus parentes próximos, é considerável. É superior à toxicidade da maioria dos outros insetos que picam, conta Justin Schmidt, que estuda as vespas.
 
Entomologista no Instituto Biológico da Universidade do Sudoeste do Arizona, Schmidt é especialista, especialista em venenos. Ele desenvolveu uma famosa escala de dor de ferroadas, conhecida como a Escala de dor Schmidt.
 
Em um artigo de 1986 do qual Schmidt, Yamane e outros foram coautores, os pesquisadores obtiveram veneno de diversas espécies de vespa-mandarina e injetaram em camundongos de laboratório, um experimento padrão na época para testar a toxicologia de uma substância.
 
 
FOTO: WASHINGTON STATE DEPARTMENT OF AGRICULTURE

 
 
Pesquisadores determinam a toxicidade utilizando uma medida chamada LD50. Também chamada de dose letal mediana, representa a quantidade necessária para matar 50% das cobaias testadas, geralmente pequenos animais como camundongos. Nessa pesquisa dos anos 1980, os cientistas constataram que o veneno da vespa-mandarina tinha uma LD50 de 4,1 miligramas por quilograma, um nível semelhante a outras vespas com um grau de parentesco próximo. Quanto menos veneno necessário para se ter uma dose letal, mais perigosa é a substância.
 
Para fins de comparação, a LD50 das abelhas melíferas é de 2,8 mg/kg. E o veneno de inseto mais tóxico do mundo pertence à formiga-cortadeira, com um valor de LD50 de cerca de 0,1 mg/kg em camundongos.
 
Embora as abelhas melíferas tenham um veneno mais tóxico que as vespas-mandarinas, as abelhas só conseguem picar uma vez. Vespas-mandarinas conseguem picar repetidamente e são capazes de instilar cerca de dez vezes mais veneno. Os cientistas determinaram que o veneno de uma vespa-mandarina seria capaz de matar cerca de dez camundongos e que uma pequena colônia poderia matar um animal de cerca de 68 quilos.
 
Faz sentido que essa espécie carregue tanto veneno, já que é a maior vespa do mundo, com mais de 3,8 centímetros. Mas nem mesmo elas são as mais empenhadas em defender seus ninhos: A Vespa simillima, nativa do Japão pode realmente ser mais perigosa devido a seu comportamento agressivo, embora menor em tamanho, afirma Seiki Yamane, irmão de Soichi e que também estuda vespas no Museu da Universidade de Kagoshima.
 
 
‘Coquetel sórdido’
 
 
O que faz com que a picada da vespa-mandarina seja tão dolorida? Schmidt diz que o veneno contém acetilcolina e histamina, que causam dor e inchaço, além de substâncias químicas chamadas quininas, que dilatam os vasos sanguíneos. Uma substância denominada mastoparano, não encontrada no veneno de abelha, e a fosfolipase agem em sinergia para destruir as células imunes e estimular uma inflamação disseminada. Em combinação com os quininas, essas substâncias químicas podem decompor as células musculares e sanguíneas, explica Schmidt.
 
Essa destruição acarreta a liberação de grandes moléculas, como hemoglobinas, que devem ser filtradas pelos rins. Mas diversas substâncias químicas contidas no veneno também são tóxicas para os rins, um dos motivos pelo qual os ataques de vespas-mandarinas podem provocar insuficiência renal , afirma Schmidt. A espécie também possui uma neurotoxina singular que pode bloquear os impulsos nervosos.
 
“É um coquetel sórdido de substâncias químicas elaborado para que uma pessoa não volte a mexer com elas”, conta Schmidt.
Mantendo-se em segurança.
 
 
De acordo com Schmidt, para que o veneno atinja níveis potencialmente fatais, uma pessoa teria que ser picada por umas duas centenas de vespas-mandarinas, em comparação com cerca de mil abelhas melíferas.
No Japão, vespas-mandarinas causam entre 30 e 50 mortes por ano, mas a maior parte das fatalidades se deve a reações anafiláticas alérgicas e não à toxicidade aguda, explica Schmidt.
 
No entanto é importante lembrar que vespas-mandarinas, assim como outras vespas, geralmente não atacam, a menos que se sintam ameaçadas. Principalmente quando os insetos estão em busca de alimentos, é provável que ignorem os humanos; a maioria das mortes causadas por picadas de vespas-mandarinas ocorre porque as pessoas mexem nos ninhos desses insetos de forma ameaçadora.
 
Schimidt observa que vespas-mandarinas emitem um aviso antes de picarem: elas voam para frente e para trás, estalando a mandíbula. “Isso é intimidador e chama a atenção”, conta Schmidt. “É a única espécie que faz isso.”
 
O próprio Schmidt nunca foi picado por uma vespa-mandarina, mesmo tendo começado a estudá-las em 1980. Seus colegas japoneses o alertaram a vestir uma blusa grossa por baixo do macacão de apicultura para impedir os longos ferrões desses insetos. Funcionou,  embora Schmidt às vezes se arrependa disso.
 
“Relembrando", diz ele, "eu até que gostaria de ter sido picado porque seria um dado pertinente para a pesquisa."
 
Fonte: nationalgeographicbrasil.com

 
    
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